Noite de São Bartolomeu: O massacre dos huguenotes

Os católicos perderam a calma e partiram pra porrada! Ignoraram os preceitos lindinhos do Príncipe da Paz, Rei dos Reis, Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Filho do Homem, blá blá blá… entre outros epítetos idiotas de um ser mitológico que não é levado a sério por nenhum historiador sensato – o famoso Mega Star da Palestina, Jóquei de Jegue, Grão Cavaleiro do Burrico, J³, Jay Cee etc. Ah, também o chamam de Jesus, mas isso não é importante agora.O que importa é que os católicos, fiéis do que eles próprios chamam de “verdadeira e única depositária da fé cristã”, resolveram acabar de vez com o papo e aniquilar os seus rivais protestantes. Amai-vos uns aos outros? Piada!

Mas, o que será que tem por trás disso? Será apenas briguinha do “eu sou melhor que você” ? Aqui analisaremos isso a fundo e veremos os fatos históricos a respeito.

  • Data: 24 de agosto de 1572 da Era Comum.
  • Fato: Mais de 3 mil protestantes foram brutalmente assassinados numa só noite.
  • Culpados: Muitos. Entre eles o rei Carlos IX, então com 22 anos, cujo reinado foi uma mixórdia de conflitos entre católicos e protestantes.

A estúpida incompetência de Carlos IX como monarca acabou numa selvageria sem limites. Não que ele efetivamente tivesse controle de alguma coisa mas, afinal de contas, para que ele estava com o rabo gaulês dele sentado naquele trono? Enfeite? Sim, isso mesmo! Mas ainda é cedo para analisarmos isso.

Assim, teve início uma carnificina que praticamente dizimou os huguenotes, ou seja, os protestantes que seguiam a linha calvinista – proposta por Jean Cauvin (aportuguesando: João Calvino) – e que se seguiu por vários meses, acabando por vitimar entre 70 e 100 mil pessoas no total.

Marcos 7:21 – Porque é do interior do coração dos homens que procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos,

Esta data foi um dos marcos em que as sangrentas lutas religiosas atrasaram e muito a chegada do absolutismo francês, e que caracterizou a fase final da dinastia Valois, a qual governava a França desde a Idade Média.

A conjuração de Amboise tomou lugar pouco antes da coroação de Carlos IX, em 1560. Os grandes do reino, como os Montmorency, os Guise e os Bourbon, saíam no tapa por causa do poder, escondendo-se sob o pretexto da religião e, enganadoramente, em nome de um jovem monarca que pretendiam derrubar.

A mãe de Carlos, Catarina de Médici, a rainha-mãe (e quem efetivamente detinha o poder nas mãos), manipula a todos, de modo que consiga garantir a herança de Henrique II e agradar as duas facções disputantes. Como vêem, a coisa já tava indo de mal a pior e o final… Bem, continuemos.

Apesar da derrota imposta pelo duque de Anjou, irmão de Carlos IX, nas batalhas de Jarnac e de Moncontour, os calvinistas se reagrupam e recompõem as suas forças. Tendo por capital La Rochelle, chamada de a “Jerusalém Marítima”, eles formam um estado dentro do estado, sob a autoridade do almirante Gaspard de Coligny, da rainha de Navarra, Joana d´Albret, e de seu filho Henrique (que se tornará o rei futuro Henrique IV). Eles têm agentes diplomáticos (em outras palavras: espiões), exército, armada, finanças e, como aliados, a gloriosa (que de gloriosa não tinha nada) rainha protestante Elizabeth I da Inglaterra e seus correligionários de Londres.

Este grupinho, que poderia se considerar uma matilha de lobos, se mostram uma verdadeira ameaça à autoridade real, ou o que resta dela, significando que a boa vida de Catarina de Médicis estava com os dias contados e ela seria uma perfeita idiota se permitisse que isso acontecesse. Só que ela não era idiota.

Deuteronômio 32,41 – Quando afiar a minha espada reluzente e tomar a minha aljava, vingar-me-ei dos meus inimigos e darei a paga aos que me odeiam;

Catarina, não se amedrontava facilmente, isso fica claro pelo seu modo de agir. Em nenhum momento se desesperou. Pelo contrário. Ela decide negociar Margot, sua filha e irmã de Carlos, como esposa ao protestante Henrique de Navarra (filho de Antonio de Bourbon, Duque de Vendôme e Joana III d’Albret, Rainha de Navarra), junto à Rainha Joana III.

Catarina acreditava que esse casamento seria um bom modo de reconciliar os franceses, pretendendo também conseguir a conversão do futuro genro e, dessa forma, enfraquecer o partido calvinista. E foi aí que ela cometeu um erro. O casamento entre os dois não paralisou as lutas religiosas entre católicos e protestantes. Catarina ficou horrorizada com a intransigência de Joana III, a qual não tomou participação no casamento. Para abrandar a poderosa e impertinente Rainha de Navarra, Catarina solicita o apoio de Coligny, convocando o almirante a comparecer à Corte.

Carlos IX era um fraco e não largava a barra da saia da mãe por nada. Um sujeito medíocre que nunca teve opinião própria, mas que estava ficando de saco cheio de ser apenas uma sombra no reinado. Aos poucos ele foi percebendo que não era coisa alguma lá e que sua mãe é que mandava e desmandava na França, tendo que se contentar em ser um reles fantoche, cujas vontades e determinações sequer eram ouvidas, quanto mais considerada.

O cara estava ficando puto da vida, em outras palavras, mas ele sabia de quem tinha que ter medo. Por isso, acabou tendo grandes crises existenciais. Carlos sequer era o preferido de Catarina e só estava no poder por causa das regras de sucessão. Só isso e mais nada! Considerando Freud só nasceria alguns séculos depois, Carlinhos teve que ficar remoendo isso interiormente, enquanto mommy não tava nem aí pro que ele tinha na cabeça. A verdadeira paixão dela era o duque d’Anjou, a quem ela assegurou sua fortuna e sua glória, sob pretextos falaciosos e em detrimento de Carlos, o filho mais velho, que se vê obrigado a conceder ao irmão o título de Intendente Geral do Reino, com poderes astronômicos. Como diz um amigo meu: “família só é bom em retrato”.

Entretanto, Carlinhos tinha sangue de militar. Ele se perdia em sonhos, tentando imitar seu avô Francisco I e superar seu pai Henrique II.

É de Thomas Edward Lawrence (mais conhecido como “Lawrence da Arábia”) a frase “Todos os homens sonham, mas não da mesma maneira. Aqueles que sonham de noite nos recantos poeirentos das suas mentes acordam, de dia, para descobrir que tudo era vão; mas os que sonham de dia são homens perigosos, pois podem realizar os seus sonhos de olhos abertos, para os tornar possíveis.”

E é este jogo perigoso que o almirante Coligny espertamente irá explorar.

Eu não vou dizer que Catarina fosse burra. Mas, há de se convir que ela subestimou muitas pessoas em termos de política e anseio pelo poder. Quando chamou Coligny à Corte, ela acabou fazendo uma burrada! Assim que o almirante calçou a chuteira e entrou em campo, ele usou outra tática e se bandeou pro lado do bestão… digo, do jovem rei. Escuta-o com atenção respeitosa, isto é, o bajula, infla sua ambição (e seu ego), atiça seu ódio contra Filipe II da Espanha entre outras coisas, ganhando, assim, a simpatia de um rei deprimido.

Romanos 1:22 – Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos.

Carlos sente prazer em conversar com esse homem maduro e inteligente. Fica felizinho, faltando apenas dar a patinha e ir buscar um graveto.

Obviamente, o molecão (com 22 anos??) não partilhava da fé religiosa do coroa, mas admira sua coragem (será que tava rolando um clima? Vai saber…). O almirante o aconselha a governar sozinho, já que ele tem o poder, a idade e as capacidades para desafiar a rainha-mãe e sua roda excessivamente italiana, e, sobretudo, d’Anjou que está a serviço de Filipe II. Como vêem, puxa-saquismo não é de hoje. Para Coligny, o fim justificava os meios, concordando plenamente com o que Maquiavel escrevera 40 anos antes.

Coligny ficava que nem papagaio, dizendo que Carlos tinha o porte de um grande rei, de um conquistador e blá blá blá, bastando apenas querer sê-lo. Essas palavras foram como música aos ouvidos de Carlos, apesar de soarem vazias a qualquer rei mais experimentado. Bom, o aprendizado vem dos erros… Assim, Carlos passou a nutrir um sentimento quase filial pelo almirante, a quem passou a chamar de “meu pai”, certo de ter encontrado nele a figura paterna que perdera muito jovem, o conselheiro que tão penosamente lhe faltara. Tocante, não é mesmo?

É até hilário saber que os familiares de Carlinhos começavam a temer que o reizinho se convertesse ao Protestantismo. Acho até que faltou pouco pra isso e tenho certeza que o almirante bem que estava com essa idéia na cabeça. Ah, a política…

O almirante tece pacientemente a sua teia, vislumbrando que logo terá influência para levar Carlos IX a apoiar os rebeldes flamengos contra Filipe II, com o risco de provocar uma guerra com a Espanha. Uma ocasião logo se apresenta. Em abril, um vasto movimento de revolta incendeia a província de Zelândia. Os rebeldes imploram a ajuda da França e da Inglaterra. Coligny convence o Carlos a autorizar Ludovico de Nassau a montar uma tropa. Carlos doa-lhe dez mil francos. Em 29 de maio, Nassau toma Mons e Valenciennes.

Entretanto, o marechal de Tavannes e o duque de Longueville, ambos militares experientes, entram na disputa. Eles declaram a Carlos que com a ajuda aos rebeldes flamengos, ele expõe seu reino a um perigo maior. A França é incapaz de sustentar uma guerra que pode se prolongar por muitos anos. Sua economia está enfraquecida, seu exército reduzido e dividido. O rei está confuso, ainda mais que duvida da lealdade de d’Anjou, em caso de conflito.

Catarina não ia deixar por menos e dá uma de atriz de novela mexicana, caindo aos prantos, censurando Carlos (só faltou algum pré-nome e sobrenome escrotos como Carlos Rodolfo de Villeroyal para completar o mau-gosto desta pantomima barata) por sua ingratidão e a imprudência. E que se ele perdesse a guerra, seu reino será no mínimo desmembrado e submetido por muito tempo à Espanha; se ganhar, ficará a reboque dos huguenotes. Ela ainda ameaça abandonar os negócios reais e se retirar para Florença se ele persistir no projeto. Buáááá 😦

Mas Coligny introduz um novo argumento: a guerra estrangeira é o único meio de reconciliar os franceses. Se Carlos IX alcançar a vitória, ele anexará Flandres e será reconhecido como o maior soberano da Europa! Nas sessões de 16 e 26 de junho de 1572, o conselho do rei examina a questão e rejeita o projeto do almirante. Rejeição confirmada no dia seguinte por um conselho puramente militar.

Coligny, chato e pentelho como ele só, não desiste e fica enchendo o saco real: “Senhor, como o conselho destas pessoas persuadiu Vossa Majestade, não posso mais me opor a vossa vontade, mas estou seguro de que vós vos arrependereis”.

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2 Respostas

  1. […] o que será que tem por trás disso? Será apenas briguinha do “eu sou melhor que você” ? AQUI analisaremos isso a fundo e veremos os fatos históricos a […]

  2. […] Chi Bento XVI, que parece adorar o som da própria voz, discursou diante de membros do departamento do Vaticano encarregado de questões doutrinárias. Algum cientista? Se você acredita nisso, tem mais fé do que aquele que acredita que um chuvaréu inundou o mundo. O pontífice disse ainda que a Igreja tinha por obrigação defender os “grandes valores em jogo” no terreno da bioética. Eu só quero saber quem foi que conferiu este direito à ela? Talvez o mesmo que disse que eles podiam ir lá em Jerusalém matar tudo que não fosse cristão por lá, num lindo evento de paz e amor chamado “Cruzadas” ou, quem sabe, num sugestivo episódio que mostrou o belo amor cristão dos católicos num evento descrito como Noite de São Bartolomeu. […]

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