Estudo: humano é fruto de seleção natural recente


Surgiram indícios substanciais sobre o que tornou o Homo sapiens um animal menos semelhanteaos demais. O controle do fogo, o domínio de ferramentas cada vez mais complexas ou de técnicas agrícolas, a ambição permanente de escapar às forças da natureza…

Nada disso é a causa. Depois que deixou seu ponto de origem, no leste da África, há pouco menos de 100 mil anos, o homem moderno continuou sujeito às antigas leis da seleção natural. Confirmando pesquisas recentes comandadas por John Hawks, da Universidade de Wyoming, um grupo de cientistas franceses e espanhóis acaba de contribuir para esse campo de estudos com uma demonstração original e surpreendente.

De acordo com trabalhos publicados na terça-feira pela mais recente edição da revista Nature Genetics, a distribuição das variações genéticas elementares (conhecidas como Polimorfismos de Nucleotídeo Único, ou SNP) presentes no genoma humano aponta para uma intervenção forte da seleção natural em passado não muito distante – menos de 60 mil anos.

Os pesquisadores também conseguiram identificar um conjunto de 582 genes sobre os quais foram exercidas certas pressões seletivas recentes. Essas variações genéticas marcam as diferenças visíveis (cor de pele, altura, características capilares, etc.) e invisíveis (suscetibilidade a doenças, resistência a certas enfermidades, etc.) entre as diferentes populações.

“Foi a primeira vez em que se pôde demonstrar, na escala do genoma humano como um todo, que certas diferenças físicas e fisiológicas entre populações resultam da seleção natural”, explica Lluis Quintana-Murci, do Instituto Pasteur e do Conselho Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França, co-autor desses trabalhos.

Há duas escolas de pensamento em confronto, com relação a essa questão. De um lado aqueles, ocasionalmente definidos como “neutralistas”, para os quais os genomas de duas populações distantes entre si evoluem diferentemente por obra do acaso puro e simples, ou seja, de uma “deriva genética”. Do outro lado ficam os estudiosos para os quais a diferenciação entre as populações resulta primordialmente de pressões ambientais.

Para resolver a questão, os pesquisadores estudaram uma amostra populacional de cerca de 200 pessoas de origens diferentes. Eles observaram a distribuição de seus SNP, tendo por base a natureza desses elementos. Os ditos SNP “silenciosos” supostamente não exercem efeito fisiológico, e os demais conduzem a uma modificação na proteína produzida por um gene.

Esquematicamente, se o acaso fosse o fator determinante, todas as pequenas mutações – silenciosas ou não – apresentariam distribuição semelhante entre as populações em estudo. No entanto, não é esse o caso. Os pesquisadores observaram que os SNP mais diferenciados entre os grupos populacionais distintos – freqüentes em alguns deles, ausentes ou quase ausentes em outros – são os que têm efeito fisiológico.

Essas pequenas mutações, portanto, não surgem por acaso, mas por efeito da “seleção positiva”, aquela que favorece determinados traços. “Por exemplo, observamos uma mutação presente em 85% das populações africanas e quase ausente das populações européias”, diz Quintana-Murci. Essa mutação, de fato, aconteceu em um gene que os cientistas sabem envolvido na determinação da severidade de crises de malária.

Os pesquisadores identificaram, igualmente, diferenças entre as populações que portam genes que resultam em imunidade ao diabetes, e que afetam a capacidade de digerir açúcar e a incidência de hipertensão. Esse último exemplo traduz, em escala genética, a maior suscetibilidade de determinados grupos étnicos às enfermidades cardiovasculares.

No entanto, essas variantes incidem sobre uma proporção “infinitesimal” do genoma humano, de acordo com Quintana-Murci. Além disso, acrescenta o pesquisador, “as diferenças morfológicas, que aos nossos olhos são tão importantes no que tange à idéia de pertencermos ou não a determinados grupos étnicos, em muitos casos são completamente ‘acidentais'”.

“Um dos genes submetidos a um processo recente de seleção natural que nós identificamos se chama EDAR, e está implicado na determinação da espessura dos cabelos, na forma da dentição e nas características da transpiração. O processo de seleção natural que resulta em uma população que transpira pouco, com o objetivo de evitar perdas térmicas, pode ter impacto sobre a aparência, mas essa influência será sempre fortuita”, explica o geneticista.

Os pesquisadores afirmam igualmente que mutações ditas “deletérias” – nos genes associados a doenças – estão presentes com a mesma freqüência em todas as populações, na Europa, Ásia ou África, e afetam apenas uma pequena porcentagem dos indivíduos. “Isso significa que a ‘seleção negativa’, aquela que desfavorece certos traços, se aplica da mesma forma à Europa, Ásia e África, a fim de manter, com incidência baixa, as mutações responsáveis por doenças”, diz Quintana-Murci.

Para conduzir sua demonstração, os pesquisadores envolvidos no trabalho usaram o banco de dados do consórcio HapMap. Segundo Christian Biémont, da Universidade de Lyon e CNRS, o arquivo cobre amostras de população “oriundas de apenas quatro origens: Nigéria, Japão, China e Estados Unidos/Europa ocidental e setentrional. Por isso, é necessário cautela quanto à validade estatística dos resultados dos testes”, acautela Biémont.

“Ainda não compreendemos bem o significado dos SNP”, ele acrescenta. “Nossa recente pesquisa procurou associar certos genes à predisposição a doenças, mas ainda estamos longe de compreender o impacto real dessas associações”. Além de serem interessantes em si, portanto, essas pesquisas também abrem caminho a novas pesquisas sobre a genética médica.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: