O ataque do obscurantismo no Brasil

ObedienciaIgreja lança sua maior ofensiva contra a prática do aborto no Brasil

Sob o lema “Escolhe, pois, a vida”, adotado pela Campanha da Fraternidade de 2008, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou ontem a maior ofensiva da Igreja contra a proposta de legalização do aborto no País. Também estão sendo combatidas quaisquer intenções de se permitir eutanásia (procedimento que antecipa a morte de um doente incurável) e pesquisas com embriões humanos.
A escolha do tema, apresentado na sede da CNBB, em Brasília, abre uma linha de fogo contra três medidas polêmicas apoiadas pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e por importantes setores do governo. A campanha da fraternidade tradicionalmente elege temas consensuais, como paz no trânsito, justiça social, juventude e família.

No Brasil, o aborto só é permitido nas hipóteses de estupro ou risco de morte para a mãe. Temporão acha que a proibição para os demais casos – saúde física e mental, situação econômica da mãe ou deficiência do feto – é fruto de preconceito machista. Ele defende que o tema seja decidido sob a ótica da saúde pública, já tendo defendido realização de plebiscito.

Mas a Igreja é radicalmente contra as iniciativas do governo e do Congresso para ampliar as hipóteses de aborto legal, segundo informou o secretário-geral da CNBB, d. Dimas Lara Barbosa.

REVOGAR LEI DE 1940

E não ficará por aí: “Está no nosso horizonte, num segundo momento, lutar para revogar a permissão legal do aborto nos casos já permitidos”, disse d. Dimas, citando o exemplo de uma santa canonizada por ter preferido morrer para permitir que o filho nascesse.

No lançamento da campanha, que teve o depoimento de médicos antiaborto e de notáveis como dona Zilda Arns, criadora da Pastoral da Criança, a CNBB usou uma série de argumentos religiosos, científicos, políticos e éticos para mostrar que o aborto, além de ferir a dignidade da mulher, atenta contra o direito à vida dos bebês e viola os direitos humanos. Apelou até para o argumento duvidoso de que o aborto seria a principal causa de câncer de mama, a doença que mais mata mulheres no Brasil.

Preocupado com a mobilização católica, o governo mandou dois representantes ao lançamento da campanha: o chefe-de-gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, e o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, que se manteve quieto.

Ouvido pelo Estado, Temporão evitou polemizar. “Acho importante que o tema continue sendo debatido e a igreja é um bom espaço para que isso ocorra”, disse. Mas ele não recua de suas convicções favoráveis à descriminação do aborto e não acredita em retaliações da Santa Sé, como a ameaça de excomunhão, feita pelo papa Bento XVI, contra os defensores da medida. “Que o resultado dessas discussões seja levado ao fórum adequado, que é o Congresso’, completou.

Para d. Dimas, lutar pelo direito à vida e contra o aborto não é um dogma religioso, mas “constatação a partir de análises sérias da boa ciência”. Para ele, o aborto é questão ética e não de saúde pública. No segundo semestre, está prevista uma plenária dos organismos latino-americanos de defesa da vida. A CNBB vai também procurar Temporão e outros dirigentes do Executivo, além de ONGs que, na avaliação de d. Dimas, “fazem manipulação de dados” em defesa do aborto. “Não é um embate da Igreja com o governo. Diversos órgãos civis defendem a mesma postura da Igreja e estão articulados conosco pela vida.”

FRENTE ECUMÊNICA

D. Dimas informou que também ganha força uma frente com representantes de várias religiões. A primeira reunião, há um mês, já teria selado um pacto entre católicos, espíritas, evangélicos e movimentos espiritualistas.

O secretário-geral da CNBB avaliou ainda que, em eventual plebiscito, o povo se posicionaria contra o aborto, “se esclarecido sobre o tema com isenção e honestidade”. Mas ele é contra a realização da consulta. “A defesa da vida é inegociável para nós. Não é (a manifestação de) minoria ou maioria que mudará um valor universal dos cristãos.”

O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, reforçou ontem, ao lançar a campanha na cidade, que a oposição à legalização do aborto, da eutanásia e do uso de embriões humanos em pesquisas não é uma questão religiosa, mas de direitos humanos. “A inviolabilidade da vida humana é definida pela Constituição brasileira e pela Organização das Nações Unidas”, disse o cardeal.

Ao celebrar a Missa de Cinzas, que abriu ontem o período da Quaresma, d. Odilo convidou os fiéis a lutar contra todos os casos de violência e de ameaças à vida humana. “Não podemos aceitar leis contrárias à vida humana”, insistiu d. Odilo, acrescentando que, mesmo se não convencer quem defende posições contrárias, a Igreja terá de cumprir o seu dever, que é defender a vida. “Se não conseguirmos frear esses atentados contra a vida, (ao menos) teremos cumprido nosso dever”, afirmou o cardeal. É o que, lembrou, tem feito Bento XVI, que enviou mensagem à CNBB. No texto, o papa adverte que todas as ameaças à vida – ele cita o aborto e a eutanásia – devem ser combatidas.

D. Odilo admite que a Igreja enfrenta dificuldades para fazer valer seus argumentos quando se trata de salvar a vida da mãe – caso em que o aborto é permitido pela lei brasileira. “A morte da mãe é uma possibilidade sempre lamentável, mas é preciso redimensionar os números usados, pois, segundo o Ministério da Saúde, eles são menores que os divulgados”, disse o cardeal.

Quanto à alegação de que o uso de pesquisas com células-tronco embrionárias pode salvar outras vidas, d. Odilo argumenta que, “sendo um ser humano, o embrião não pode ser sacrificado, porque a vida humana não é um bem utilizável”. A Igreja, acrescentou o cardeal, não se opõe a pesquisas com células-tronco, mas à utilização de embriões.

Reportagem de Vannildo Mendes e José Maria Mayrink, publicado no Estado de Sao Paulo

Anúncios

3 Respostas

  1. Na verdade hoje no Brasil a legislação só permite os dois casos citados (estupro e risco p\ a saúde da mãe) entretanto é consenso desde os juízes de 1º instância até os Supremos Tribunais que nossa legislação se encontra defasada frente aos novos casos. E com o avanço da ciência na descoberta de doenças antes mesmo do feto estar completamente formado (como nos casos de anencefalia) hoje tem-se quase que como praxe conceder os pedidos de abortos em tais casos. Como estudante de Direito o que nos é passado é que cabe ao juiz, suprir as “lacunas” entre a lei, pois nossa legislação muitas vezes se torna obsoleta e insatisfatória a medida que a sociedade evolui junto com as novas descoberta. Não consigo entender como alguém defende a idéia de obrigar uma mãe a gerar uma prole da qual sabe antecipadamente que não irá sobreviver, como alguém acha humano impor a uma mulher que conviva com uma (falsa alegria) pois seria ela obrigada a suportar tal frustração de 9 meses acompanhando algo que é um dos maiores desejos humanos, (maternidade/paternidade) sendo que ela saberia a cada dia que acordasse e visse sua barriga maior que ao fim de tudo de nada adiantaria. Vejo em pessoas que defendem tal pensamento uma sincera distorção de valores. Não sou defensor do aborto indiscriminado, mas em certos casos não há o que se contestar, não acredito que a igreja tenha uma atitude tão baixa de impor para a pessoa a escolha entre “dois” sofrimentos, ou ela vive uma “falsa” gravidez ou será rejeitada no reino dos céus… Coerção psicológica das mais baixas possíveis. Enfim na luta pela dignidade humana e pela vida os religiosos deveriam se deter mais aos estudos e analises que não fossem só os eclesiásticos, talvez então não falassem tanta asneira.

  2. Sobrevivência, vida e liberdade… Sinceramente, creio que vida é mais do que sobreviver, e liberdade é fundamental para a vida. Que vida terá um bebê fruto de um estupro, o sofrimento da mãe e etc? As pessoas tem o direito de escolher, ou pelo menos devem ter. O problema das religiões é querer universalizar tudo. Se eles não querem os abortos, mandem os fiéis deles não abortarem e pronto, mas mudar uma lei? Isso valeria pra todos, inclusive os não-cristãos!

  3. […] A ICAR continua fazendo de um tudo para impedir a legalização do aborto e para revogar os textos legais que permitem o aborto em certos casos, mesmo em casos em que a gestação e o parto tragam prejuízos à Mulher (leia mais) […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: