Carnaval: A guerra Igreja x Cultura

empire.jpgA Fátima, do blog Palavras Sussurradas sempre contribui com uma idéia ou outra. Dessa vez, ela me mandou uma notícia interessante que saiu no jornal Agora São Paulo (edição do dia 31/01/2008, pg.A5).

A notícia informa que a Escola-de-samba Gaviões da Fiel têm como tema deste ano a cidade de Santana de Parnaíba (Grande SP), que acolheu os bandeirantes na época dos desbravamentos. Até aí nada demais. O problema que está sendo criado pela igreja chatólica é com relação à uma das alegorias do 5º carro, denominado “Paixão de Cristo” , que fechará o desfile apresentação, nele será encenado um trecho do “Drama da Paixão” (espetáculo tradicional da cidade homenageada), que narra os últimos dias de Jesus antes da crucificação.

A Gaviões (prometo não fazer piadinha a respeito) garante que não serão apresentadas imagens sacras no carro alegórico, nem tampouco haverá apresentação de atores que representassem Cristo nem Maria, tratando-se tão-somente de uma encenação do encontro de Herodes com Pilatos. Se bem que eu acho que seria legal e bem sacro mostrando o Jóquei de Jegue levando umas porradas. Carnaval é cultura. 😀

A encrenca causada pelos chatólicos romanos é comandada pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, José Benedito Simão, que declarou “nós vemos o fato como preocupante. Tem de haver um cuidado na exposição das imagens sacras. Não pode haver uma junção do sagrado com o profano”. Ahan, Sei! Simãozinho ainda afirmou: “O nu é exageradamente explorado no Carnaval, que é uma festa que tem muitas drogas e violência”. Que pecado, né? Um monte de gente pelada (mas, por lei, sem mostrar a genitalia) é algo que a igreja não pode tolerar, pois ela é de uma pureza e castidade extrema e… Ops! Esqueceram de avisar a Da Vinci, Michelângelo e Rafael (clique nas imagens para ampliá-las):

leda.jpg david1.jpg pecado_original.jpg

O perclaríssimo bispo até aventou a hipótese de recorrer ao Judiciário: “se o desfile agredir os ideais da Igreja Católica, ela tem o direito, para não dizer o dever, de impedir o desfile, indo à Justiça”.

Ideais? Alguém que defendeu a escravidão, patrocinou massacres, é repleta de pedófilos, maníacos sexuais e coisas lindas do gênero se sente no direito de falar algo? Então ela vai processar o Estado, já que ele distribui remédios contraceptivos e camisinhas, não é mesmo e… Ops 2 !

Foi exatamente o que o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, afirmou que na próxima semana a Arquidiocese, através da Pastoral da Saúde, isto é, que iria ingressar na Justiça pedindo a suspensão da iniciativa da prefeitura do Recife de instalar postos de saúde nos pólos de folia do carnaval com a oferta de contraceptivo de emergência (pílula do dia seguinte).

O bispo, que como bom líder religioso é uma sumidade em asneiras, afirmou “Aborto é crime, é um dos delitos mais graves segundo o Direito Canônico e quem o comete é automaticamente excomungado”.

Aborto? Desde quando a pílula do dia seguinte é abortiva? Deve estar escrito isso na Bíblia. Um livro que fala de dragões e unicórnios não surpreende se trouxer mais besteiras desse calibre. Ainda mais com a reafirmação de tolice pelo coordenador da Pastoral, Vandson Holanda que soltou a seguinte pérola: “Ações semelhantes devem ocorrer em vários pontos do País”, disse ele. A argumentação será a de que o contraceptivo de emergência é abortivo. Lindo não?

Mas, o judiciário ainda tem pessoas com alguns neurônios e que sabe o que é um Estado laico. Uma dessas pessoas é o juiz da 6ª Vara da Fazenda Pública de Recife, Ulisses Viana Filho, pôs hoje um ponto final nessa babaquice pernambucana. Ele considerou irrelevantes as opiniões religiosas que condenam o uso de preservativos ou contraceptivos sem qualquer respaldo da comunidade científica. “A República Federativa do Brasil é um estado laico e não uma teocracia”, afirmou, ao destacar também que “de acordo com opinião expressa nos órgãos de comunicação escrita, o medicamento não será distribuído aleatoriamente, mas tão-somente para mulheres vítimas de abusos sexuais ou de acidentes verificados no uso das ‘camisinhas'”. Não foi dessa vez, Dom Zezinho. 😀

Voltando ao Sudeste e à questão dos sambistas, o pessoal da gaviões não deu uma titica pro que falaram. O carnavalesco Mauro Quintaes declarou que “Com o carro Paixão de Cristo, nós pretendemos mostrar a encenação, que acontece em Santana do Parnaíba, para divulgar o calendário cultural da cidade, que é o grande foco do nosso desfile”.

Em carnavais passados, a Igreja já meteu o bedelho nos desfiles de Escola-de-Samba (talvez por arrecadar mais dinheiro e “fiéis” do que ela. Será que as missas um dia sairão com o som do Zeca Pagodinho?). Um dos casos mais famosos ocorreu em 1989, quando a Arquidiocese do Rio de Janeiro impediu que a Beija-Flor desfilasse com a imagem de um Cristo Redentor mendigo. O carnavalesco Joãozinho Trinta, à frente da escola naquela ocasião, decidiu ir para a avenida com a imagem coberta por um pano (e no meio descobriu a imagem só de sacanagem, deixando a Igreja puta da vida).

No ano 2000, a TPF (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade) e a Arquidiocese paulistana impediram que a Águia de Ouro apresentasse ao público a escultura da Virgem Maria segurando uma criança indígena no colo. Mesmo porque, índios não tinham alma e, assim como os negros, podiam ser escravizados.

horus.jpgParticularmente, acho frescura. Qualquer um que tenha visto uma estatueta de Iris e Hórus… Bem, não falo nada. Ela está aqui do lado. Tirem suas conclusões (clique na imagem para ampliá-la).

Como cariocas não poderiam ficar atrás de paulistas, numa eterna briga bairrista, um carro que representa o Holocausto, a morte de mais de seis milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, é motivo de polêmica neste ano no Carnaval do Rio. A Viradouro, com um enredo sobre o arrepio, diz que vai manter a alegoria, apesar dos pedidos da Federação Israelita do Rio, no melhor estilo “tampar o Sol com a peneira”.

O carro traz esculturas de corpos e sapatos amontoados. Sérgio Niskier, da Federação Israelita, declarou que “colocar um carro com a representação do Holocausto com passistas é inadequada. O tratamento do Holocausto para quem tem marcas na pele é muito difícil e não deve ser feito desta forma”.

A Viradouro se defendeu, alegando que o carro é uma forma de protesto contra o nazismo; o carnavalesco Paulo Barros declarou que “ o carnaval também é um meio para que a gente faça esse alerta para o mundo inteiro”.

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” – Martin Luther King.


Com a participação de Fátima Tardelli

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6 Respostas

  1. […] Ainda sobre o assunto indico a excelente crítica elaborada pelos editores do CCT, que pode ser acessada clicando aqui. […]

  2. Olá!

    A Justiça do Rio proibiu a Viradouro de exibir esculturas de cadáveres de vítimas do Holocausto, bem como o desfile de um destaque fantasiado de ditador alemão Adolf Hitler.

    A decisão veio da lavra da juíza Juliana Kalichszteim.

    Apesar do jornal Agora (edição de 1.02.2008 fls. A7) ter afirmado que trata-se de uma sentença, a bem da verdade trata-se de uma medida liminar, já que em obediência ao princípio do contraditório, não poderia a juíza proferir sentença sem que a parte contrária tivesse oportunidade de defender-se.

    http://extra.globo.com/lazer/plantao/2008/02/01/justica_proibe_viradouro_de_levar_carro_do_holocausto_sapucai-379447208.asp

    A ação foi movida pela Federação Israelita do Estado do RJ, que, apesar de previamente consultada pela agremiação Viradouro (há cerca de 2 meses), e não ter, a priori se manifestado contrariamente ao pedido, alegou ao repórter do Jornal Agora que ‘não sabíamos que haveria uma pessoa representando Hitler” (palavras de Niskier).

    O carnavalesco Paulo Barros, afirmou lamentar que não tenha sido compreendido na tentativa de fazer um alerta sobre a gravidade do Holocausto, mas que não apresentariam recursos contra a decisão proferida em primeira instância.

    ::::::::::::::::::::::::::::
    Duas questões são relevantes:

    a) se o problema era uma pessoa representando Hitler, não bastava proibir o desfile desta pessoa?

    b) no lugar de usar o Judiciário, não poderia dita Federação haver consultado a agremição para a retirada do ‘hitler’? . Afinal, a atitude da agremiação, em consultar previamente a Federação, demonstrou sua preocupação com os ‘sentimentos’ das vítimas ou do povo perseguido, não?

  3. E assim vamos todos perdendo a liberdade de expressão, tão pouco a pouco que nem percebemos. Não só por conta da Igreja Católica mas os religiosos em geral, os políticamente corretos e… quem mais tem interesse em extinguir a liberdade de expressão?

  4. Não foi a primeira e nem será a última vez que a Igreja Católica pedirá para esta ou aquela imagem, ou esta ou aquela representação sacra não seja levada para a Avenida. Aqui no Rio, por pouco, o Joãosinho Trinta não entrou no Index por conta de uma alegoria com a imagem do Cristo.

    Em meu blog há um post sobre isto. Se quiserem ler, abaixo está o link:
    http://recantodaspalavras.wordpress.com/2008/02/02/carro-alegorico-proibido-ele-queria-vir-de-baiana/

  5. O arcebispo dom José Cardoso Sobrinho é um prelado cioso de sua autoridade. À frente da Arquidiocese de Olinda e Recife desde 1985, quando substituiu o venerando arcebispo dom Hélder Câmara, ele já destituiu vários padres, fechou instituições fundadas pelo antecessor e chamou a polícia para proteger o palácio episcopal de fiéis. Dom Sobrinho chegou a pedir que a prefeita de Olinda, Luciana Santos, se retirasse da fila da comunhão por pertencer a um “partido ateu”, o PCdoB. Recentemente, depois de consultar o arcebispo, a Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício) condenou o padre Edwaldo Gomes a três meses de suspensão e a uma retratação pública por ele ter concelebrado uma missa com bispos anglicanos – o que é proibido pelo Direito Canônico. Essas decisões do arcebispo são polêmicas e até impopulares, mas elas não podem ser contestadas. A Igreja Católica tem suas regras e uma hierarquia estabelecida e quem se filia a ela tem a obrigação de obedecê-las, goste ou não.

    O problema começa quando o clero católico se acha no direito de impor seus pontos de vista à população como um todo, ignorando o caráter laico do Estado, consagrado desde a primeira Constituição republicana, de 1891.

    Sobrinho ameaçou os fiéis de seu rebanho com excomunhão caso tomassem a pílula do dia seguinte que a Prefeitura do Recife vai distribuir durante o Carnaval. Na lógica escolástica do arcebispo, a pílula estimula a prática do sexo e até mesmo o aborto. “É um pecado grave. Quem pratica o aborto está matando, destruindo a vida de pessoas inocentes. A Igreja Católica pune essa prática com a excomunhão”, disse o prelado, como se vivesse nos tempos de Torquemada, o grande inquisidor espanhol do século XV. A coisa pegou fogo quando o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, criticou a decisão da Igreja de recorrer à Justiça para barrar a medida. “É uma questão de saúde pública, não religiosa. A Igreja cada vez mais se afasta dos jovens com esse tipo de postura.” “Estamos dando continuidade a uma política de prevenção da saúde sexual e reprodutiva da mulher”, disse à ISTOÉ Tereza Campos, secretária de Saúde do Recife. O arcebispo não deixou por menos: “Eles é que estão corrompendo a juventude. Quem faz mal para os jovens é quem está difundindo o mal, induzindo os jovens a praticar sexo à vontade, gastando dinheiro para eles usarem camisinha, violando a lei de Deus.”

    Na terça-feira 29, o Ministério Público Estadual deu parecer favorável à prefeitura. Assim, nem sequer haverá processo para julgar. O arcebispo pode agora, se quiser, excomungar seus fiéis, mas espera-se que se curve à lei. Sim, porque ele chegou a dizer que “a lei de Deus está acima de qualquer lei humana”. Só numa teocracia; num Estado laico, não. O prelado buscou a lei para defender as opiniões da Igreja – ou melhor, para tentar impô-las a todos. Melhor assim, mas é bom lembrar que é o mesmo expediente dos radicais islâmicos da Europa, que não aceitam os valores seculares das sociedades ocidentais, mas se valem deles para exigir tolerância com seus preconceitos. Procurado por ISTOÉ, dom Sobrinho, através de sua assessoria, não deu resposta.

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