Você é mentiroso? Pergunte a seu cérebro

A simples possibilidade de ser interrogado – pelo pai ou pela mãe, pelo chefe ou outra pessoa importante – é suficiente para fazer com que a pressão sanguínea, o ritmo cardíaco e a respiração aumentem. Mas, ao contrário da sabedoria popular, esses sinais de ansiedade não são indicadores confiáveis da honestidade de alguém. É por isso que os pesquisadores estão se voltando para o cérebro para separar os mentirosos dos honestos.

O ato de mentir ou omitir a verdade desencadeia atividades no cérebro que mandam o sangue para o córtex pré-frontal (localizado logo acima das cavidades oculares), que controla vários processos psicológicos, incluindo aquele que ocorre quando uma pessoa inventa uma resposta. “Mentir é um exemplo desse tipo de resposta executiva, já que envolve reter uma resposta verdadeira”, explica Sean Spence, professor de psiquiatria adulta geral na University of Sheffield, na Inglaterra. “Quando você sabe a resposta para a pergunta, ela é automática; mas evitar dizer a verdade requer algo mais”.

Spence e seus colegas usaram a tecnologia do imageamento por ressonância magnética funcional (fMRI) para determinar se alguém não está dizendo a verdade ao monitorar o fluxo sanguíneo em certas áreas do cérebro, que indica mudanças na atividade neuronal nas sinapses. “Ao usar o fMRI, o escâner detecta alterações nas propriedades magnéticas do sangue”, ele afirma. Mais especificamente, as moléculas de hemoglobina nos glóbulos vermelhos exibem propriedades magnéticas diferentes dependendo da quantidade de oxigênio que contêm. As regiões mais ativas do cérebro usam – e, portanto, contêm – a maior parte do oxigênio.

O fMRI escaneia o corpo todo. O paciente fica completamente dentro da máquina que contém microfones, alto-falantes e um teclado que permite que ele se comunique com os pesquisadores. Os cientistas compararam imagens gravadas dos pacientes em repouso e aquelas realizadas depois que eles tiveram que responder a uma série de perguntas.

Os testes de polígrafo, ou detector de mentiras, são o método mais conhecido de discernir o fato da ficção, mas os pesquisadores dizem que eles não são confiáveis porque, na verdade, medem a ansiedade com base no ritmo cardíaco ou respiratório do paciente, que pode ser facilmente interpretado de maneira errônea. “Eles não detectam a mentira, mas a ansiedade da pessoa ao ser acusada de ter mentido”, explica Spence. “É sabido que os psicopatas têm um nível reduzido de ansiedade”, o que lhes permitiria enganar o polígrafo. Já o fMRI produz imagens do próprio processo envolvido na mentira.

A pesquisa de Spence encarou seu maior teste em junho, durante uma demonstração da tecnologia no episódio de um reality show inglês chamado Lie Lab (“laboratório da mentira”), que estuda a integridade de um homem acusado de ser terrorista, de uma mulher que alega ter sofrido abuso quando era criança, e de uma mulher condenada por envenenar uma criança sob seus cuidados. Spence e sua equipe usaram um fMRI para estudar Susan Hamilton, 42 anos, de Edinburgh (Escócia), que em 2003 foi condenada por envenenar com sal uma garota diagnosticada com uma doença metabólica terminal. Hamilton, que tinha que alimentar a garota por um tubo que levava os alimentos diretamente a seu estômago, foi presa depois que a menina chegou ao hospital com níveis altíssimos de sódio no sangue. A polícia afirmou que uma seringa cheia de sal foi encontrada na cozinha de Hamilton, mas ela nega qualquer conhecimento do fato. A mulher foi liberada da prisão no ano passado, e continua buscando maneiras de provar sua inocência publicamente.

Spence teve um verdadeiro palco para ir ainda mais longe com sua pesquisa, que até então só havia sido conduzida com universitários jovens e saudáveis. Na maioria dos testes, Spence e sua equipe faziam perguntas aos participantes duas vezes, às quais eles respondiam honestamente e, então, mentindo. No caso de Hamilton, havia eventos específicos em questão, e ela respondia às perguntas sob coação.

Os pesquisadores colocaram Hamilton na máquina quatro vezes; a cada sessão, eles perguntaram sobre o envenenamento. Com o fMRI, Spence conseguiu ver que ela ativava grandes regiões dos lobos frontais do cérebro e também levou um tempo significativamente mais longo para reagir à versão contada pelos policiais. Os resultados não provaram que ela seja inocente, diz Spence, mas indicaram que seu cérebro estava reagindo como se ela fosse inocente.

Spence reconhece que os resultados teriam sido mais precisos se ele tivesse feito um estudo inicial que incluísse mais questões gerais para ela, não relacionadas às acusações. Infelizmente, TV é showbiz, e seu tempo com ela era limitado. “Estudar esse caso trouxe os problemas da técnica à tona. Queremos fazer vários estudos de controle”, ele conta.

Spence diz que a tecnologia não está pronta para ser amplamente usada em investigações criminais, ressaltando que há uma grande diferença entre determinar a mentira em condições inócuas (como perguntar se alguém tomou café pela manhã) e em crimes graves. Mas isso não impediu que outros presos o procurassem para tentar provar sua inocência.

Empresas já começaram a comercializar os testes de fMRI como detectores de mentira precisos, apesar de Spencer dizer que os resultados alcançados durante os estudos controlados raramente podem ser duplicados. No ano passado, a Cephos Corporation, em Pepperell, Massachusetts, começou a oferecer o que eles chamam de “serviços de detecção de mentira com base em fMRI”, após um estudo de 2005 com 61 indivíduos, e afirma que a máquina é capaz de detectar uma mentira com mais de 90% de precisão”. A No Lie MRI, Inc, em Tarzana, California, oferece serviços similares.

No entanto, Spence adverte que mais pesquisas são necessárias antes que os fMRIs possam ser utilizados com precisão para determinar a culpa ou inocência de alguém em um caso criminal. Atualmente, ele está tentando conseguir recursos para estudar a tecnologia com voluntários de situações financeiras diferentes, assim como aqueles com um histórico de problemas relacionados à personalidade e depressão, mais suscetíveis a complicações legais.


Fonte: Scientific American Brasil

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