Extraterrestres, o contato impossível

O universo traz em si a esperança de vida. Em 12 anos foram descobertos mais de 200 planetas fora do nosso sistema solar. Entre eles, Gliese 581c, revelado há alguns meses e potencialmente habitável. “Só a nossa galáxia -e existem milhares delas- contém de 200 a 300 bilhões de estrelas, e tudo permite pensar que várias delas sejam, como o nosso Sol, cercadas de planetas”, acrescenta Yves Sillard. Ex-diretor-geral do Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES) e ex-diretor geral do armamento, ele salienta que “o objetivo do satélite francês Corot, lançado no fim de 2006, e que será seguido em dois anos pelo satélite americano Kepler, é evidenciar a existência desses planetas ao redor das estrelas mais próximas de nossa galáxia”. Novas esperanças para esse cientista que não temeu dirigir recentemente uma obra coletiva sobre “fenômenos aeroespaciais não-identificados”. Com efeito, seria surpreendente se um desses planetas não contivesse pelo menos alguns vestígios de vida passada…

Para os exobiólogos como André Brack, tal descoberta marcaria uma etapa decisiva. “A existência de um segundo exemplo de surgimento de vida no universo bastaria para demonstrar que esse processo não é único”, ele afirma. Mas de que vida se trataria? Seria ela mais ou menos evoluída que a da Terra? Saberíamos reconhecê-la, poderíamos nos comunicar com ela?

A criação do universo remonta a 13,7 bilhões de anos. Nosso sistema solar nasceu há 4,4 bilhões de anos. “Entre essas duas datas, diversos planetas equivalentes ao nosso podem ter abrigado o aparecimento de bactérias capazes de evoluir para sistemas inteligentes”, prossegue o pesquisador. Além disso, a vida na Terra não apareceu imediatamente, mas cerca de um bilhão de anos depois de sua formação. “Não é impossível imaginar que a vida tenha aparecido em alguns dos planetas extra-solares dez séculos, cem séculos ou mesmo mil séculos antes do que aconteceu na Terra”, acrescenta Sillard. Para favorecer um encontro de terceiro grau, duas pistas se oferecem. Mas cada uma apresenta alguns obstáculos.

A primeira envolve a busca ativa de uma inteligência extraterrestre tão superior quanto distante. Como a estrela extra-solar mais próxima de nós está situada a 4,4 anos-luz, e aquela de que depende Gliese 581c a 20,5 anos-luz, uma mensagem emitida por rádio (propagando-se a uma velocidade próxima da luz) levaria respectivamente 4,4 e 20,5 anos para atingir a civilização que se encontraria lá. Na melhor das hipóteses, portanto, a resposta chegaria nove anos depois da pergunta.

Essas dificuldades não desanimaram os promotores de vários projetos, como o programa americano SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence – Busca por Inteligência Extraterrestre), que espreita as manifestações extraterrestres com o radiotelescópio porto-riquenho de Arecibo. Mas sem resultados por enquanto. Sonhamos com as primeiras frases do romance de Ítalo Calvino, tirado de “As Cosmicômicas” (1965) e intitulado “Os Anos-luz”: “Uma noite, eu observava como de hábito o céu com meu telescópio. Notei que de uma galáxia distante 100 milhões de anos-luz saía uma cartolina. Nela estava escrito: ‘EU TE VI’…”

É preciso então ir ao local? “Para um ser humano, é imaginável em um futuro em médio prazo, tocando os limites impostos pela física, atingir uma velocidade dez vezes inferior à da luz, ou seja, 30 mil quilômetros por segundo”, explica Sillard. Daí, uma viagem de 44 anos para chegar ao planeta extra-solar mais próximo, e dois séculos para atingir Gliese 581c. “É claro que a duração das missões ultrapassaria a da vida humana”, acrescenta esse politécnico, a quem o desafio não parece abalar. “Serão os descendentes dos membros das tripulações que chegarão ao destino. Mas não é totalmente impossível.” Sob a condição, é claro, de realmente se querer.

A segunda opção inverte a restrição da viagem. Extraterrestres, cuja civilização seria muito mais avançada que a nossa, poderiam ter conseguido viajar mais depressa que a luz, ou mesmo curvar o espaço-tempo -os dois únicos meios que podemos imaginar, no estado atual de nossos conhecimentos teóricos, para reduzir a duração dos vôos espaciais. Desde a década de 1950, o físico Enrico Fermi havia enunciado o paradoxo decorrente dessa hipótese: se extraterrestres tiverem condições de vir até nós, deveríamos vê-los. Mas não os vemos… E a própria existência das naves espaciais que os teriam trazido à Terra continua muito hipotética.

Não que faltem depoimentos. Ao contrário. Desde que o Conselho Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) criou em 1977, apesar do ceticismo da comunidade científica, o Grupo de Estudos e Informações sobre Fenômenos Aeroespaciais Não-identificados (Geipan), eles não param de chegar. Jacques Patenet, atual diretor do Geipan, nota que 2.600 casos de observações foram registrados na França nos últimos 30 anos, dos quais 460 são considerados fenômenos aeroespaciais não-identificados. Entre eles, em dez a 20 casos, segundo esses especialistas, há uma “presunção muito forte” da intervenção de um objeto material como uma nave. E isso se traduz por vestígios no solo e na vegetação que poderiam ter sido deixados por uma aterrissagem, a detecção do objeto nas telas de radares ou ainda a observação por pilotos de comportamentos “inteligentes” do objeto não-identificado (ovni).

Por que, então, nenhum vestígio físico desses visitantes jamais foi encontrado? “Com nossos atuais meios de análise, teríamos condições de certificar -ou não- a origem extraterrestre desses fenômenos”, lamenta André Brack. O sociólogo Pierre Lagrange, especialista em paraciências, estigmatiza o antropomorfismo que marca muitas vezes as pesquisas em termos de ovnis. Enquanto os imaginamos pequenos, verdes ou mais ou menos monstruosos, os extraterrestres, se eles existem, talvez sejam infinitamente diferentes de nós…

“Quanto mais eles forem capazes de dominar seu meio ambiente, mais terão se afastado de nós ao mesmo tempo pela cultura, a ciência, a biologia e sem dúvida o físico”, ele estima. Isso não os impediria obrigatoriamente de tomar a iniciativa e, encorajados por seu progresso, encontrar um meio de comunicar-se conosco. Mas ainda assim seria preciso que encontrassem algum interesse nesse diálogo… “Podemos muito bem ser o babuíno de algum antropólogo extraterrestre, cujo programa de pesquisa não estamos nem perto de compreender!”, sugere o sociólogo. Nossos cientistas realmente têm vontade de se comunicar com as abelhas ou as formigas, ou somente de estudá-las?

Se quisermos esperar no futuro nos sentir menos sós no universo, sem dúvida é preciso contar principalmente com nossas próprias faculdades de observação. E desenvolvê-las. “Na Terra, cada vez que fomos confrontados com outras civilizações, não as compreendemos”, lembra Pierre Lagrange. No entanto, há muito poucas diferenças entre nós e os aborígines da Austrália ou os indígenas da Amazônia. Nesse contexto, ele se pergunta: “Seríamos capazes de ver e de reconhecer civilizações originárias de formas de vida que podem ter tomado dimensões totalmente diferentes da nossa?” Essa é toda a questão.

Publicado na Le Monde, em 06/11/2007, por Michel Aberganti

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Uma resposta

  1. Pode existir vida? É praticamente impossível não existir vida em outro planeta, certo de que existe vida em mais de 20 planetas!
    Inteligente? certamente! Com tantos planetas habitáveis, não seria difícil achar vida inteligete
    Com tecnologia mais avançada q a nossa? Talvez, não podemos descartar esta hipótese!
    Que eles vem ao nosso planeta secretamente, ou mantém contatos com os “Homens de Preto” e querem iniciar um guerra contra os humanos? Loucuras… coisas de Spelberg (é assim q escreve)

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