Neandertais podem ter sido ruivos e capazes de falar

A temporada de caça aos genes dos neandertais acaba de produzir um fruto, digamos, fashion: ao que tudo indica, pelo menos alguns desses hominídeos troncudos tinham em comum com Julia Roberts uma vasta cabeleira ruiva. O mais curioso é que, ao contrário do que se especulava, essa característica parece ter surgido de forma independente – uma espécie de evolução convergente do cabelo avermelhado e da pele muito clara.

A pesquisa, publicada online na prestigiosa revista especializada “Science“, achou uma versão do principal gene responsável por essas características em dois neandertais bem separados no espaço e no tempo. “Um dos fósseis vem de Monti Lessini, na Itália, e tem 50 mil anos, enquanto o de El Sidrón, na Espanha, tem 43 mil anos de idade”, segundo o pesquisador espanhol Carles Lalueza-Fox, da Universidade de Barcelona.

Numa verdadeira tour de force da biologia molecular, Lalueza-Fox e companhia conseguirem obter dos dois fósseis pequenas quantidades do gene mc1r. Trata-se de um pedaço de DNA que contém a receita para a produção de uma proteína especializada na regulação dos pigmentos dos mamíferos. Em sua forma original, a proteína funciona na superfície das células que produzem os pigmentos escuros, ajudando a regular todo esse processo.

No entanto, quando esse gene sofre mutações, ou seja, alterações em seu código de DNA, a fabricação dessas “tintas” celulares pode ser diminuída ou interrompida. O principal resultado, em humanos, costuma ser a pele muito clara e a cor de cabelo típica dos ruivos. “Até onde sabemos, as mudanças nesse gene não estão ligadas aos cabelos louros e também não têm relação com a cor dos olhos”, explica o cientista espanhol.

Igual, mas diferente

O que os pesquisadores acharam nos dois fósseis foi uma versão do gene que era diferente da encontrada na maioria das pessoas ruivas de hoje, mas que também parecia diminuir a função da proteína. Primeiro problema: confirmar que não se tratava de contaminação com DNA humano moderno.

DNA é simplesmente uma desgraça em termos de contaminação. Basta você encostar sua mão numa mesa para que ela fique sujíssima com seu material genético. Isso tem levado muita gente a contestar os resultados das análises de DNA neandertal. “Acho que estamos conseguindo resolver isso. Nesses casos, amplificamos [produzimos cópias] uma série de outras regiões do DNA, e todas elas não têm nenhuma semelhança com humanos modernos”, diz Lalueza-Fox.

A equipe ainda se deu ao trabalho de procurar as mesmas alterações do mc1r em todos os pesquisadores do grupo e em 3.000 humanos modernos. Não achou nada parecido – confirmando que se tratava de uma mutação genuinamente neandertal. Para fechar o cerco, copiaram a versão antiga do gene e a enfiaram em células humanas atuais, para ver o que ela fazia. Ou melhor, não fazia: tratava-se mesmo de uma versão enfraquecida do gene.

“Não sabemos se os neandertais em questão tinham uma cópia ou duas cópias do gene”, explica o pesquisador de Barcelona. Em tese, se a pessoa tiver duas cópias – uma do pai e outra da mãe – teria realmente pele claríssima e cabelo muito ruivo. “De toda forma, achamos que os neandertais apresentavam toda a variedade de tons de pele e cabelo que existe no norte da Europa hoje.”

Existe um longo debate sobre a razão de a humanidade ter desenvolvido olhos e cabelos claros. Há quem fale em seleção sexual – as características teriam simplesmente sido consideradas “sexies”, e por isso se espalhado. Outros apostam na seleção natural: em locais com pouca luz solar ao longo do ano, a pele clara deixa passar mais os raios do Sol e facilita a produção de vitamina D pelo organismo.

“Acho que nosso trabalho dá apoio à seleção natural como causa. Em lugares quentes, havia pressão para se manter a pele escura como proteção, mas assim que você deixa essas regiões a pigmentação fica mais livre”, diz Lalueza-Fox.

Ele aposta que esse primeiro vislumbre da aparência viva de nossos parentes extintos é só o começo. “É a primeira vez que conseguimos comparar diretamente a função de um gene neandertal com o nosso, e isso certamente vai trazer muita informação não só sobre eles, mas também sobre nós mesmos”, afirma o espanhol.

Se dependesse do principal gene associado ao bom funcionamento da linguagem, os neandertais e o Homo sapiens teriam muito o que conversar – literalmente. Uma equipe internacional de pesquisadores descobriu que a versão neandertal desse gene, o FOXP2, pode ter sido praticamente idêntica à que existe no nosso genoma hoje, permitindo que articulemos uma conversa complexa.

Capacidade de fala

Ainda não dá para bater o martelo e dizer que os neandertais falavam como nós, segundo Johannes Krause, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva (Alemanha), uma série de outros genes também podem ser necessários para isso. “E ainda precisamos achar todos esses genes em humanos modernos antes de ver se eles também estão presentes nos neandertais. O que podemos dizer é que, do ponto de vista do FOXP2, não existem motivos para achar que eles não conseguissem falar”, declara ele.

Apesar da incerteza, a pesquisa de Krause e seus colegas na última edição da revista científica “Current Biology” é um marco e tanto. É a primeira vez que se consegue examinar diretamente a composição de um gene de neandertal cuja função é conhecida – cortesia do seqüenciamento completo do DNA do hominídeo troncudo, que está sendo coordenada pela equipe do Instituto Max Planck.

Dúvidas lançadas

E é aí que mora o perigo. O trabalho dos pesquisadores nessa área andou recebendo fortes críticas – outros cientistas, ao ver os primeiros dados do genoma neandertal, afirmaram que haveria alto grau de contaminação de DNA humano moderno nas amostras.

É um problema potencialmente sério, já que a proximidade das espécies é tão grande que fica difícil separar o DNA das duas. Além disso, DNA estranho é pior que poeira pra impregnar objetos: é quase impossível impedir que haja alguma forma de contaminação. Krause reconhece as dificuldades, mas diz que no estudo atual elas foram superadas.

“De fato, quando se lida com o genoma inteiro, a coisa complica. Neste caso, porém, tomamos precauções especiais para minimizar a contaminação, além do fato de estarmos lidando com um só gene, o que facilita um pouco”, diz ele.

“Trabalhamos com um sítio arqueológico muito especial, o de El Sidrón, na Espanha, onde os ossos de neandertais foram recolhidos imediatamente, congelados e mandados para nós com o mínimo contato com as pessoas. Além do mais, houve canibalismo lá – a carne foi retirada dos ossos, o que parece impedir a presença de bactérias decompositoras cuja DNA poderia se misturar ao dos neandertais”, relata Krause, enfatizando a colaboração internacional da pesquisa.

Feito nós

Outras precauções tomadas incluíram ver se o DNA de outras regiões do genoma das amostras eram diferentes das de todos os humanos modernos, o que sugeriria que se trata mesmo de DNA neandertal. Nesse teste a pesquisa passou.

Foi então a hora de partir para o FOXP2 propriamente dito. O gene está presente em todos os mamíferos (e nas aves também), mas a forma “humana” dele tem duas diferenças cruciais em relação aos chimpanzés, nossos parentes vivos mais próximos. Isso significa que a proteína cujo código o gene contém tem dois de seus “tijolos” em formato diferente. Sabe-se que o FOXP2 permite, entre outras coisas, o controle neurológico delicado dos músculos da boca que nos leva a falar direito.

Bem, acontece que essas duas modificações cruciais também aparecem na versão neandertal do gene. Para Krause e seus colegas, isso significa que a população ancestral de humanos e neandertais – que teria vivido há cerca de 400 mil anos, já possuía a versão com “upgrade” do gene, a qual teria chegado a ambas as populações-filhas. E, talvez, transformado ambos os povos em tagarelas inveterados.


Fonte: G1


Veja AQUI tudo o que já publicamos sobre neandertais.

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