Big Bang Brasil

Que tal se a Física fosse um programa de TV? De repente, as pessoas se interessassem mais, não é mesmo? Dentre tantos lixos programas televisivos, vale a pena destacar os Reality Shows. Já pensaram se fizéssemos um Reality Show com os maiores físicos modernos do mundo?

Senhoras e senhores, apresentamos o… BIG BANG BRASIL!! (por Salvador Nogueira)

Bial – Olá, pessoal! Está começando mais uma edição do nosso BBB! É o Big Bang…

Torcida no estúdio – Brasiiiil…

Bial – Vamos lá, então, que o programa está quente, muito quente hoje. Quente e denso. A casa andou fervendo nos últimos dias. Mas, antes de mais nada, vamos ver como estão os nossos “brothers”… pode espiar, pode espiar à vontade! E aí, alemão, como é que está aí? Muita emoção?

Einstein – Pois é, Bial, a coisa aqui está quente mesmo.

Bial – Mas o que aconteceu para te deixar assim?

Einstein – Bem, tudo começou em 1915, quando eu desenvolvi minha teoria da relatividade geral. Ela revelou uma coisa muito incômoda, que deixou todo mundo meio perturbado aqui…

Bial – Vish, alemão, o que você aprontou aí?

Einstein – Você sabe, na relatividade geral eu costurei espaço, tempo, matéria, energia e gravidade, tudo no mesmo pacote. Aí, sabe como é, sem muita coisa para fazer aqui dentro da casa, decidi iniciar uma continha. Coisa simples, para flexionar os músculos cerebrais — eu adoro malhar, sabe?

Bial – Noooossa… que conta foi essa, seu Einstein?

Einstein – Bem, decidi aplicar as equações da relatividade geral ao universo inteiro — como se eu fosse calcular o que acontece com o cosmos todo se ele for representado pela minha teoria. E aí aconteceu uma coisa bem desconfortável.

Bial – Eita, esse alemão, viu…

Einstein – Pois é, o que minhas contas mostraram é que o universo não podia estar parado — ele devia estar ou se contraindo, ou se expandindo.

Bial – Que absurdo, alemão!

Einstein – Concordo. Tanto que decidi mudar a teoria no ano seguinte para impedir isso, incluindo uma letra lambda nas equações, de modo a fazer com que o universo ficasse paradinho, do jeito que devia…

Friedmann – Mas alemão, as suas contas estavam certas! A equação original era a mais bonita, você deveria ter acreditado no que ela sugeria… eu mesmo conferi os cálculos.

Bial – Nossa, que polêmica, hein? Para resolver, vamos chamar agora um brother zen, o nosso monge… George Lemaître! E aí, George?

Lemaître – Fala, Bial!

Bial – Tudo bom aí?

Lemaître – Mais ou menos, Bial.

Bial – Por quê?

Lemaître – É o alemão, Bial. Ele andou me colocando contra todo mundo. Diz que as minhas idéias são absurdas. E olha que elas nasceram da própria teoria dele!

Bial – Ih, alemão, o que aconteceu?

Einstein – O nosso querido padre belga devia ficar mais no confessionário, isso sim. Depois de fazer cálculos com base na minha relatividade, em vez de adotar a versão com o lambda, ele apostou na versão original da teoria e agora defende a idéia de que o universo inteiro nasceu de algo como um “átomo primordial”, que explodiu e deu origem a tudo que vemos. Uma bobagem.

Lemaître – Alemão, pára com isso. Você me magoa quando diz que minhas conclusões não têm valor.

Bial – Vish, que bagunça. Fecha o som da casa! Agora vamos ver uma coisa que aconteceu em 1931, com um dos nossos brothers mais queridos, Edwin Hubble.

Hubble – Ih, olha isso aqui! Veja só, eu estava analisando a luz dessas galáxias e parece que todas elas estão se afastando de nós. Que estranho.

Bial – E agora, o que pode ser isso? Vamos dar uma espiadinha!

Einstein, Lemaître, Friedmann e Hubble discutem.

Bial – E aí, quem é que vai se explicar? Hubble?

Hubble – Eu não. Eu só fiz as medidas. Não gosto de me intrometer nessas discussões cosmológicas.

Bial – Monge?

Lemaître – É óbvio, Bial! Se as galáxias parecem estar todas se afastando de nós, é claro que elas já estiveram muito mais próximas antes.

Einstein – Tá, eu tenho de admitir que essas espiadas do Hubble parecem apontar para o fato de que o universo já foi no passado muito mais compacto, e não dá para negar que ele está hoje em expansão.

Bial – Ih, alemão, então aquele negócio de lambda era tudo bobagem?

Einstein – Pois é, Bial. O maior erro da minha carreira.

Bial – Olhaí… confissões no BBB! Mas que bom, parece que tudo se acomodou, com os brothers todos aceitando que o universo nasceu de um ponto muito pequeno e denso…

Hoyle – Todos não, Bial! Esse negócio de Big Bang é tudo bobagem!

Bial – Ué, mas e as espiadinhas do Hubble?

Hoyle – Elas mostram que o universo é dinâmico, mas eu acho um absurdo dizer que ele “nasceu” num ponto do tempo, a partir de um “átomo primordial”, como sugere o monge. Isso é coisa de religioso mesmo.

Lemaître – Ei, peraí, peraí. Você sabe muito bem que eu não misturo a minha fé com a cosmologia — minhas conclusões sobre o átomo primordial derivam da teoria do alemão!

Bial – Esse é o nosso Fred Hoyle, sempre polêmico!

Hoyle – Polêmico não, Bial. É que esse papo de Big Bang não convence mesmo. Mas eu tenho a resposta. Desenvolvi em 1948 uma ótima teoria, chamada de teoria do estado estacionário. Ela sugere que o universo na verdade sempre foi assim. As galáxias se afastam mesmo umas das outras, mas matéria surge do nada entre elas para criar novas galáxias, e o universo continua nesse esquema, eterno e sempre parecido.

Gamow – Tsc, tsc, tsc…

Bial – Ih, parece que o George Gamow não concorda. O que foi, George, para você ficar ressabiado assim?

Gamow – Bial, a teoria do Hoyle não está com nada. Ela não explica como surgiram os atuais átomos do universo. Já o meu modelo do Big Bang explica como apareceram os átomos de hidrogênio e hélio, exatamente nas proporções que existem hoje no cosmos!

Hoyle – Nem vem, seu Gamow, nem vem. Você sabe muito bem que essa explicação não serve de nada, pois não explica como surgiram os outros átomos, além do hidrogênio e do hélio. O que explica isso na verdade é a minha teoria sobre a formação de núcleos atômicos no interior das estrelas! É de lá que nasceram os elementos químicos mais pesados que o hidrogênio e o hélio!

Bial – Ih, que confusão, que confusão! Fecha o som da casa! O Big Bang Brasil está pegando fogo! Vamos deixar os brothers lá se matando, porque daqui a pouco tem o paredão! Gamow e Hoyle vão se enfrentar! Qual teoria vence? A teoria padrão do Big Bang, desenvolvida por Gamow, ou a do estado estacionário, por Hoyle? Vamos dar uma espiadinha?

Einstein, Friedmann, Lemaître, Gamow e Hoyle estão discutindo, quando Robert Dicke decide entrar na conversa.

Dicke – Já sei! Tem uma coisa que pode confirmar se o universo “nasceu” de um ponto muito denso e quente, como diz a teoria do Big Bang de Gamow, ou se ele vive num estado estacionário, como diz o Hoyle. Se ele tiver “nascido” do Big Bang, ele deve ter uma radiação vinda de todas as direções — uma espécie de eco dessa fase altamente compacta do universo.

Gamow – Grande novidade! Eu já tinha previsto isso em 1948, e você apresenta essa idéia como se fosse nova. Tsc, tsc, tsc…

Dicke – Ei, nem sabia que você já tinha dito isso, George.

Gamow – Pois é, se alguém puder detectar essa radiação de fundo…

Bial – E aí, Dicke, você vai dar uma espiadinha nessa radiação?

Dicke – Vou, Bial. Já estou desenvolvendo um aparelho para detectá-la, se ela existir mesmo…

Penzias – Póparar, póparar! Olha aqui o que eu detectei na antena em que trabalho lá nos Laboratórios Bell!

Dicke – Ih, fomos furados, rapazes.

Bial – Que moraaaal… Arno Penzias diz ter encontrado a radiação cósmica de fundo, uma relíquia de uma época apenas 300 mil anos após o Big Bang.

Penzias – Eu e o meu amigo Wilson detectamos esse negócio meio sem querer, mas agora não temos dúvidas: é a radiação do Big Bang.

Gamow – CQD, amigo Hoyle, CQD.

Hoyle – Absurdo. Esse Big Bang é absurdo. As coisas podem parecer boas para a sua teoriazinha agora, mas veja só: eu acabo de desenvolver a minha sensacional teoria do estado quase estacionário, que responde até pela radiação cósmica de fundo!

Bial – Ih, Hoyle, você não está forçando a barra, não?

Gamow – É, Bial, o cara não desiste.

Hoyle – Não adianta. A radiação me pegou de surpresa, mas existe um problema que ninguém está mencionando. A radiação aparece exatamente com a mesma intensidade em todas as direções do universo. Isso indica que o universo foi muito homogêneo no passado e, se isso é resultado de um Big Bang, o universo hoje jamais teria as galáxias que têm, pois era homogêneo demais para evoluir para o mundo de hoje, que é cheio de vazios, com algumas poucas regiões concentradas de matéria.

Gamow – Calma, Hoyle. As variações na radiação cósmica vão aparecer. Falta apenas desenvolver os instrumentos para detectar essas flutuações diminutas.

Bial – Fecha o som da casa! Quem será que tem razão, Gamow ou Hoyle? Vamos dar um espiadinha…

Einstein, Friedmann, Lemaître, Gamow, Hoyle e Dicke estão discutindo, quando George Smoot decidiu entrar na conversa.

Smoot – Então, eu desenvolvi um projeto aqui que pode resolver a parada…

Todos se viram para Smoot.

Smoot – Um satélite. Um satélite para detectar com alta precisão potenciais variações na radiação cósmica de fundo.

Gamow – Parece ótima idéia. Só no espaço para evitar a interferência gerada pela atmosfera nessas observações delicadas.

Bial – Mas e aí, Smoot, vai rolar?

Smoot – Olha, faz tempo que tenho o projeto, mas a explosão do ônibus espacial Challenger, em 1986, está adiando tudo. Tivemos de cortar o tamanho do Cobe…

Bial – O que é Cobe?

Smoot – É o nome do satélite.

Bial – Ahh… vamos continuar espiando.

Smoot – Mas agora ele está pronto. Vamos lançar e, em 1992, devemos fechar um mapa detalhado da radiação cósmica de fundo.

Bial – Fecha o som da casa! E agora? Estamos chegando ao emocionante final! Quem vai continuar na casa, Gamow ou Hoyle? Vamos ver as torcidas aqui no nosso estúdio!

Torcida do Gamow – ÊÊÊÊÊÊÊÊÊ! Big Bang! Big Bang! Big Bang!

Torcida do Hoyle – Êêêê.

Bial – Vamos dar uma espiadinha. E aí, Gamow, está pronto para ver sua família?

Gamow – Nossa, vamos lá!

Batimentos cardíacos de Gamow vão a mil, enquanto ele olha para a tela.

Gamow – Olha lá, todo mundo veio! Mamãe Gamow, tio Gamow, vovô Gamow, vovó Gamow!

Bial – E aí, Hoyle, preparado?

Hoyle – Eu sei que está todo mundo contra mim, Bial, mas vamos lá.

Bial – Olha aí a sua torcida, Hoyle!

Batimentos cardíacos de Hoyle vão a mil.

Hoyle – Puxa, mamãe Hoyle, tio Hoyle, vovô Hoyle, vovó Hoyle!

Bial – Chegou o grande momento, hein? Estão preparados?

Gamow – Sim, Bial.

Hoyle – Manda ver, Bial.

Bial – E atenção. O George Smoot acaba de enviar aos estúdios da Globo o resultado da medição da radiação cósmica de fundo de 1992. Foi uma disputa acirrada, viu? Mas, com uma diferença de uma parte em cem mil, o Cobe encontrou variações que suportam o… Big Bang!

Gamow – Ah, eu sabia, eu sabia, eu sabia!

Hoyle fica com cara de fossa. Einstein, Friedmann, Lemaître, Gamow, Dicke e Smoot vão abraçar Gamow. Hoyle deixa a casa e vai para o palco com Bial.

Bial – E aí, Hoyle, tudo bem?

Hoyle – É a vida, né, Bial?

Bial – Pois é. Mas veja aqui a sua torcida, que veio te receber.

Hoyle – Ih, Bial, pode ficar sossegado. Eles acham que sabem de tudo. Hoje é difícil negar que o universo como o conhecemos surgiu num ponto denso e quente e expandiu a partir dali — essa idéia que eu apelidei de Big Bang lá atrás. Mas ainda tem muita água para correr por baixo da ponte da cosmologia. E mal sabem eles que estão apenas procurando cordas para se enforcar.

Bial – É isso aí. Muito já aprendemos sobre a natureza e o surgimento do universo, mas ainda há muito mais pela frente. Pode continuar espiando…

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Uma resposta

  1. Genial!!

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