Filosofia para principiantes

filosofia.jpgPor Jim Hankinson
Traduzido por Desidério Murcho (adaptado ao português brasileiro)

Introdução: O que a filosofia é

Eis uma coisa que o leitor deve sempre evitar tentar explicar. Mas pode desejar ficar com duas coisas claras desde o início.

Em primeiro lugar, a filosofia não é um assunto – é uma atividade. Conseqüentemente, não se estuda: faz-se. É assim que os filósofos, pelo menos os da tradição anglo-saxônica (que por qualquer razão histórica obscura parecem incluir os finlandeses), têm tendência para pôr a coisa. Em segundo lugar, a filosofia é em grande parte uma questão de análise conceptual – ou seja, pensar sobre o pensamento. Por agora, limitemo-nos ao mais básico.

Isto é algo que no sentir de alguns filósofos é impossível, mas não há razão para o leitor lhes seguir o exemplo. Para o visitante casual que observa rapidamente a paisagem, a filosofia parece desconcertantemente difícil. Uma das suas maiores dificuldades é o fato de os filósofos, salvo raras e honrosas exceções, acharem praticamente impossível usar uma linguagem compreensível para as pessoas comuns, como por exemplo o português. Acontece até que quando um filósofo quer referir-se à Pessoa Comum (uma espécie que é improvável que ele tenha conhecido em primeira mão, apesar de poder ter ouvido lendas de viajantes acerca dela), usa a expressão “o homem que apanha a carreira 45 para a Damaia”, aparentemente sem se dar conta de que já ninguém usa a palavra “carreira”, exceto para referir o percurso vicioso dos políticos, nem que a Damaia já não é também o exemplo ideal da mediocridade suburbana lisboeta.

A sua tarefa, portanto, é alcançar pelo menos uma tênue compreensão do mais profundo alcance do vocabulário técnico, tal como é usado, de forma tão enigmática, pelo filósofo contemporâneo. Não se preocupe. A competência lingüística, tal como o segundo Wittgenstein teria dito (que não deve confundir-se, é claro, com o primeiro Wittgenstein, que não diria tal), é uma questão de pôr as palavras na ordem certa. O leitor não terá realmente de compreender que quer dizer a maior parte disto, se é que quer dizer alguma coisa.

As vidas dos filósofos

A filosofia é um assunto (perdão, uma atividade) que tem uma história; e como progride tão pouco, se é que progride realmente alguma coisa, a sua história é, conseqüentemente, mais importante do que a história de outras disciplinas. O especialista instantâneo bem sucedido tem de se equipar com um conhecimento prático desta história, se quiser singrar na charlatanice.

Para os propósitos deste livro, confinar-nos-emos quase exclusivamente à filosofia ocidental, essa admirável tradição que começou na Grécia no século VII a.C. Há uma boa razão para esta opção. A filosofia da tradição ocidental é um tipo de projeto muito diferente da filosofia oriental. Numa próxima seção daremos alguns conselhos sobre como ser apropriadamente evasivo acerca de temas como a Meditação, o Budismo, a Religião Indiana, as Pessoas com Cabeças Rapadas e Túnicas Amarelas Imundas, e outras ameaças sociais do gênero.

Portanto, esta seção contém fatos mais ou menos interessantes sobre alguns filósofos mais ou menos famosos, fatos esses de natureza tanto biográfica como filosófica, dispostos de maneira mais ou menos cronológica.

Os primeiros filósofos gregos são geralmente conhecidos por pré-socráticos, apesar de isto ser enganador: nem todos viveram antes de Sócrates, e, em qualquer caso, não constituíram uma escola coerente; na verdade, a maioria deles não constituíram sequer indivíduos coerentes.

Ninguém sabe por que começou a filosofia e quando começou; o especialista instantâneo ambicioso com inclinações marxistas pode tentar oferecer uma explicação em termos de uma dialética inexorável de forças históricas, mas nós não o recomendamos.

Uma característica notável de muitos pré-socráticos é a sua tentativa de reduzir os constituintes materiais do Universo a uma ou mais Substâncias básicas, tais como a Terra, o Ar, o Fogo, as Sardinhas, os Gorros de Lã Velhos etc.

Tales de Mileto (c. 620-550 a.C.) foi o primeiro filósofo reconhecido. Poderão ter existido outros antes dele, mas ninguém sabe quem foram. Ele ficou conhecido principalmente por defender duas coisas:

1) Tudo é feito de Água; e

2) Os ímanes têm alma.

O leitor poderá pensar que não foi um princípio muito prometedor.

Anaximandro (c. 610-550) pensava que tudo era feito do Apeíron, uma concepção que tem um certo encanto espúrio, até percebermos que não quer realmente dizer coisa alguma.

Anaxímenes (c. 570-510) aventurou-se corajosamente numa direção completamente nova, apesar de não menos arbitrária, ao afirmar que na realidade tudo era feito de Ar, uma perspectiva talvez mais plausível na Grécia do que, por exemplo, no Barreiro.

Heráclito (c. 540-490) discordou, defendendo antes que tudo era feito de Fogo. Mas ele avançou um passo mais, afirmando que tudo estava num estado de fluxo e que tudo era idêntico ao seu oposto, acrescentando que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, e que não existe qualquer diferença entre o Caminho a Subir e o Caminho a Descer, o que mostra que nunca foi ao Bairro Alto numa sexta-feira à noite. Vale por vezes a pena referir de passagem (o que constitui sempre a melhor maneira de nos referirmos ao que quer que seja em filosofia) a “Metafísica de Heráclito”, para falar da sua doutrina do fluxo, desde que não tenhamos de explicar seja o que for. Heráclito era muito admirado por Hegel (q.v.), o que nos diz talvez mais sobre Hegel do que sobre Heráclito.

Pitágoras (c. 570-10), como qualquer aluno da primária sabe, inventou o triângulo retângulo; na verdade foi mais longe, ao acreditar que tudo era feito de números. Acreditava também numa forma extrema de reencarnação, defendendo que uma larga gama de coisas improváveis, incluindo os arbustos e os feijões, têm alma, o que tornava a sua dieta bastante problemática, acabando por ser indiretamente responsável pela sua bizarra morte (q.v.).

Empédocles (c. 500-430), um notável médico e político siciliano do século V, completamente doido (veja-se Mortes para mais detalhes), pensava que tudo era feito de Terra, Ar, Fogo e Água, misturando-se ou separando-se tudo através do Amor e da Discórdia, ganhando cada um, à vez, a proeminência no ciclo do eterno retorno, espelhando assim o cosmos, em grande escala, o casamento suburbano típico.

Depois vêm os eleatas, Parmênides (520-430) e Melisso (480-420), que foram ainda mais além. Em vez de afirmarem que tudo era na realidade feito de uma substância, defenderam antes que na realidade só havia uma única Coisa, grande, esférica, infinita, imóvel e imutável. Toda a aparência de variedade, movimento, separação entre objetos, etc., era uma Ilusão. Esta teoria extraordinariamente contra-intuitiva (por vezes conhecida por Monismo, da palavra grega “mono”, que quer dizer “dispositivo antiquado de gravação”) revelou-se surpreendentemente popular, sem dúvida por estar de acordo com a experiência que as pessoas têm com algumas instituições, como os Correios e a EDP.

O seu sucessor, Zenão (500-440), avançou um conjunto de argumentos paradoxais para mostrar que nada pode mover-se. Aquiles e a Tartaruga são ainda discutidos, tal como a Flecha: argumentou ele que esta não podia realmente mover-se, o que, a ser verdade, teria sido uma boa notícia para S. Sebastião. Os argumentos tratam de saber em grande parte se o Espaço e o Tempo são infinitamente divisíveis, ou se um deles, ou ambos, é feito, ou são feitos, de quanta indivisíveis – mencione isto para dar a Zenão um ar moderno; se lhe pedirem explicações, mude de assunto.

Os últimos dos pré-socráticos são os atomistas Demócrito (c. 450-360) e Leucipo (450-390). Diz-se por vezes que eles anteciparam a teoria atômica moderna. Isto é completamente falso, e o especialista instantâneo ganha alguns pontos ao dizê-lo, pela simples razão que o que há de crucial nos átomos democritianos é a sua indivisibilidade, ao passo que o que há de crucial nos átomos modernos é o fato de não serem indivisíveis. O leitor pode também fazer notar que Demócrito não gostava de sexo, apesar de não se saber se tal se devia a razões teóricas ou a algum infeliz revés pessoal.

É tudo quanto aos pré-socráticos; vamos agora ao próprio homem que lhes deu o nome, Sócrates (469-399). Sócrates não escreveu coisa alguma: dependemos de Platão no que respeita a qualquer informação sobre ele, e é uma vexata quaestio (uma boa expressão) saber até que ponto Platão reproduziu as idéias de Sócrates, ou se limitou unicamente a usar o seu nome. Não se deixe enredar nesta questão: uma boa manobra é afirmar, com um certo desdém arrogante, que o que conta é o conteúdo filosófico, e não a sua origem histórica.

Platão (427-347) acreditava que os objetos comuns do quotidiano, como as mesas e as cadeiras, eram meras cópias “fenomênicas” imperfeitas de Originais perfeitos que existiam no Céu para serem apreciados pelo intelecto, as chamadas Formas. Também há formas de itens abstratos tais como a Verdade, a Beleza, o Bem, o Amor, os Cheques Carecas, etc. Esta posição trouxe algumas dificuldades a Platão: se tudo o que vemos, sentimos, tocamos, etc., deve a sua existência a uma Forma Perfeitamente Boa, têm de haver Formas Perfeitamente Boas de Coisas Perfeitamente Horríveis. O próprio Platão menciona o cabelo, a lama e a sujidade; mas nós podemos pensar em exemplos muito melhores, tais como peúgas brancas com sapatos pretos, caramelos de Badajoz e galos de Barcelos.

Platão parece ser imensamente sobreestimado como filósofo; se não acredita em mim, veja o seguinte argumento tipicamente platônico, tirado do Livro II da República:

1) Aquele que distingue as coisas com base no conhecimento (presumivelmente, em vez de ser com base no mero preconceito) é um filósofo;

2) Os cães de guarda distinguem as coisas (neste caso, os visitantes) consoante os conhecem ou não (esta é uma verdade cara aos carteiros); ergo

3) Todos os cães de guarda são filósofos.

Experimente usar de vez em quando este argumento, para ver como se sai.

Outra manobra útil de aproximação a Platão é argumentar uma das duas idéias seguintes:

1) que ele era um feminista;

2) que não era.

Ambas as afirmações podem ser sustentadas e acabar por revelar-se úteis (em ocasiões diferentes, claro). O indício para 1) é o fato de Platão afirmar no Livro 3 da República que as mulheres não devem ser discriminadas em questões de emprego unicamente por serem mulheres. A favor de 2) é o fato de, imediatamente a seguir, Platão comentar que uma vez que as mulheres são por natureza muito menos talentosas do que os homens, esta “liberalização” não faz de qualquer maneira diferença alguma.

Depois de Platão vem Aristóteles (382-322), por vezes conhecido como o Estagirita, que ao contrário do que pode parecer não é o embrião de um estagiário, mas um nativo de Estagira, na Macedônia. Foi aluno de Platão e esperava suceder-lhe como diretor da Academia. Sentiu-se, por isso, ultrapassado quando Espeusipo (não é necessário saber seja o que for sobre ele) ficou com o lugar, abandonando ofendido a Academia para fundar a sua própria escola, o Liceu – que não deve ser confundido com o lugar misterioso onde os nossos pais perderam a inocência.

Aristóteles era estupidamente brilhante. Desenvolveu a Lógica (na verdade, inventou-a), a Filosofia da Ciência (que também inventou), a Taxonomia Biológica (sim, também foi inventada por ele), a Ética, a Filosofia Política, a Semântica, a Estética, a Teoria da Retórica, a Cosmologia, a Meteorologia, a Dinâmica, a Hidrostática, a Teoria da Matemática e a Economia Doméstica. Não é aconselhável dizer seja o que for que não seja elogioso em relação a ele, mas o especialista instantâneo atrevido pode aventurar-se a lamentar a inclinação excessivamente Teleológica da sua Biologia, ou comentar que apesar de a sua teoria lógica ser um feito notável, ela foi no entanto, como é óbvio, ultrapassada pelos desenvolvimentos modernos devidos a Frege e Russell (q.v.). Mas tenha cuidado com estas afirmações, e nunca as produza se estiver a falar com um matemático, mesmo que este seja muito novo. Uma linha de abordagem muito mais segura consiste em depreciar moderadamente os aspectos mais caricatos da Biologia de Aristóteles, dos quais o seguinte argumento sobre a estrutura dos genitais das cobras é um exemplo:

As cobras não têm pênis porque não têm pernas; e não têm testículos por serem tão compridas. (De Generatione Animalum)

Aristóteles não oferece qualquer argumento para sustentar a sua primeira alegação, a não ser a suposição geral a que somos conduzidos de que caso contrário o órgão em causa seria penosamente arrastado pelo chão; mas a segunda deriva da sua teoria da reprodução. Para Aristóteles, o sêmen não é produzido nos testículos, mas na espinal medula (os testículos funcionam aparentemente como uma espécie de sala de espera do esperma vagabundo); além disso, o sêmen frio é estéril, e quanto mais tiver de viajar, mais arrefece (daí o fato conhecido, comenta ele, de os homens com pênis compridos serem estéreis). Assim, uma vez que as cobras são tão compridas, se o sêmen parasse algures no caminho, as cobras seriam estéreis; mas as cobras não são estéreis; logo, não têm testículos. Este esplêndido argumento é um exemplo de Teleologia Excessiva, ou de uma explicação em termos de fins e objetivos, que neste caso põe na verdade tudo de pernas para o ar.

Depois de Aristóteles a filosofia fragmentou-se cada vez mais. Fundaram-se várias escolas rivais para complementar, e desancar, as já existentes Academia e Liceu. As grandes novidades do princípio do século III a.C. são os estóicos, os epicuristas e os cépticos.

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6 Respostas

  1. quero saber um pouco sobre a Filosofia do mundo Árabe

  2. estudo filosofia a um tempo..sou graduando no curso e vejo que esse resumo ou sei la o que querem chamar esta muito inacessivel, inviável, para a compreensão daqueles que estão começando filosofia..

    se querem ajudar..eu acoselh que seja melhor facilitar…

    obrigado

  3. E eu aconselho a ter um pouco mais de humor na sua vida. O texto é jocoso per se. Se vc esperava palavras sábias ao explicar a história da filosofia (que eu acho uma cadeira extremamente inútil), sugiro ir a uma livraria.

    De nada.

  4. O texto é bom.
    Porém muito grande para publicar em post.
    Talvez em “doses” menores seria menos jocoso.
    Enfim, serve como breve apresentação da “história” da filosofia.
    Ninguem aprende filosofia, já dizia Kant,
    aprendemos a filosofar.
    Filosofar é pensar em profundidade acerca de um tema.
    Pode ser qualquer tema.
    Filosofamos sobre coisas variadas o tempo todo e nem percebemos.
    Todos somos filósofos.
    Filosofamos sobre a morte quando um ente querido morre.(Porque ele morreu?Era um sujeito tão bom. Deus quis isto? Existe Deus)
    Filosofamos sobre o trabalho, sobre a vida, sobre o futebol,
    sobre o amor.
    Todas as pessoas são filosofas por excelencia.
    MAs somente alguns pensaram muito afundo sobre determinados temas.
    Estes são os grandes Pensadores.
    E a história da filosofia é se não este a de estudar os conceitos deste grandes filósofos. Mas estudar e entender os conceitos dos filósofos não quer dizer que você está fazendo filosofia, ou filosofando.
    Filosofar é uma atividade de criação.
    QUalquer um pode filosofar.
    Assim como não é preciso ter o dom da música para tocar um instrumento.
    Basta começar a praticar.
    Claro que exitem gênios, que como na música compoem grandes sinfonias.
    Mas qualquer um pode compor uma pequena canção de acordo com o tamanho do seu conhecimento sobre música.
    E quem saberia dizer se você ao começar a praticar hoje amanha não escreva uma grande sinfonia também.
    Assim também o é na filosofia.
    Por isso, vamos filosofar.
    Não temos nada a perder com isto.
    Somente a ganhar.
    Comece duvidando de tudo,
    e assim você estará começando a trilhar
    um caminho proprio,
    onde suas certezas, serão SUAS certezas,
    e você poderá confiar em sua verdade primeira.
    Trilhemos agora o caminho de nossa amada sabedoria em nossas vidas.
    Viva a Filosofia.

  5. Boa iniciativa, mas nao acredito que a abordagem historicista seja indicada para quem está tendo um primeiro contato com a filosofia por que leva a pessoa que esta lendo a entrar em mais confusões e relativismos.

  6. Bom, raciocínio é uma dádiva para poucos.

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